Não havia um Sol no céu, ou melhor, havia, mas tinha se escondido muito bem, não chovia, mas ventava muito, e não havia pessoas fora de casa numa manhã como essa. É claro que pra mim a manhã estava perfeita.
Olhei a secretária eletrônica mais uma vez, nada. Eu precisava relaxar. Ele havia sumido há dias, e nem uma mensagem. Poderia ter morrido em um acidente de carro, ou fugido com outra. Suspirei, ele sabe que se tentasse qualquer coisa do tipo, seria um homem morto.
Um sorriso negro surgiu em meus lábios, ele sabe que eu seria capaz de matá-lo? Eu seria capaz de matá-lo? A segunda pergunta me fez ficar pensativa. Já havia feito isso antes, inúmeras vezes, eu precisava fazer. Fui criada para não confiar nem me apegar a ninguém, mas falhei completamente quando conheci Thomas Nacotille, após o casamento, Thomas Cale. Evitava tocar nesses assuntos com ele, que sempre fora alguém tão pacífico, não podia nem ver sangue sem vomitar.
Suspirei. Não era possível que não tivesse recebido minhas mensagens. Peguei o telefone e disquei o numero. Chamou uma, duas, três vezes.
- Oi, celular do Thomas e, provavelmente eu não posso atender no momento. Deixe seu recado!
- Amorzinho? É a décima mensagem que deixo. Liguei pro seu trabalho e você ontem saiu duas horas antes do horário normal. Por que não veio pra casa? Estou te esperando...
Coloquei novamente o telefone no guancho e olhei ao redor, estava nervosa. Isso nunca era um bom sinal.
Árvores se agitavam no quintal de casa, e estava me sentindo tentada a abrir a janela e deixar aquele vento impetuoso entrar. Com certeza eu me lembrava da ultima vez que tinha me sentido nervosa desse jeito e não havia sobrevivido ninguém dentro da loja, ainda fico surpresa como nunca descobriram quem foi. Uma morte ou outra, como fazia de costume é fácil deixar passar, mas quarenta pessoas mortas numa mesma loja, que não foi assaltada? Essa história me diverte até hoje, e Thomas sempre dizia que se eu chegasse perto de um acesso daqueles, ele estaria ali para me impedir de qualquer tragédia – bem, ele chama de tragédia, eu chamo de 'descontar sua raiva em inocentes'.
Só sabia de uma coisa capaz de chegar perto de me acalmar, ou como ele também dizia, de concentrar minha raiva só na pessoa culpada.
Subi as escadas. Fazia tempo que eu não fazia isso, sentia até falta de olhá-lo. Entrei no 'quarto de bagunça' segundo Thomas. E abri meu armário. Senti cheiro de mofo e de mais alguma coisa que não reconheci. Havia uma caixa grande, preta, revestida de veludo. Era velha, e a aparência deixava isso bem claro. Só a fechadura aparentava ser nova. Era grande, e o brilho prateado ainda cintilava um pouco, puxei minha corrente do pescoço para ponta dos dedos e abri um mini anjo sem asas, uma chave pequena e reluzente prata brilhou na minha mão sob a pouca iluminação do cômodo, coloquei na fechadura e a girei três vezes, 'tec', e a tampa subiu um pouco.
Levantei a tampa, e posso dizer que senti falta daquele cheiro, guardado, e podre, talvez. Uma capa preta forrava todo o conteúdo da caixa, tirei-a com cuidado, e ali estava, todo o resto. Com cuidado, removi as botas pretas, e coloquei-as no chão, junto com a capa. E então congelei.
Em mais de três mil anos, milhões de pessoas foram mortas. Mas isso nunca aconteceu. Eu mesma, matei centenas de pessoas, e nunca deixei que isso acontecesse. Então, não estava ali. Virei a caixa de cabeça para baixo no chão, meu coração pulsava rápido em meu peito, era impossível que isso tivesse acontecido. Não ele, não o meu Thomas.
Uma foice, com a lâmina fosca de sangue seco fora tudo o que caíra da caixa, junto com uma folha, dobrada ao meio.
“Se achou isto, quer dizer que tem intenção de fazer de mim um homem morto. Desculpe, é um pouco tarde não acha? Thomas.”
Transformei a folha em uma bolinha de papel, podia sentir a raiva sendo bombeada por todo o meu corpo, o desejo de sangue crescendo dentro de mim. “Respire fundo. Você é melhor que isso.” Thomas me diria em uma hora dessas. Mas as palavras de minha mãe não saíam de minha cabeça: “Não confie em ninguém. Não se relacione. Não tenha uma vida.”
Eu havia errado toda a forma de conduzir minha jornada. A única a cometer este erro, a única que depositara toda sua vida em uma pessoa que confiava. Amava. A única que amou, confiou, viveu, e a única que perdeu o livro.
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