31 de out. de 2010

Presente?


Apertei o botão aceso, e a linha ficou muda, a não ser o chiado no fundo. Água, não ondas. Cascata. Ele estava perto de uma cachoeira?
- Thomas? - minha voz saiu roca, falha, e me arrependi de ter dito. Insegurança? Desde quando sou insegura? Desde quando minha voz falha? Engoli um bolo de algo irreconhecível na garganta, e tentei ignorar a vista turva de tudo vermelho. É só um instinto psicótico...” Disse para mim mesma enquanto esperava a voz dele me responder.
E eu congelei. Não por que a voz me fez congelar, nada disso. Mas, era o Thomas. O meu Thomas, e ele estava falando comigo. Essas palavras foram dirigidas a mim, e mais ninguém. Como alguém tão doce podia estar armando algo tão perverso?
- Anjo? A minha Cale. Tinha certeza que iria me procurar. - uma risada abafada, meio nervosa, ele estava com medo de mim? - Achou meu bilhete, não foi?
- O que quer com o livro, Thomas? Sabe que se lê-lo vai enlouquecer. Eu não vou pagar um sanatório particular para ladrões. - minha voz estava picotada, e eu tentava convencer a mim mesma que isso era culpa do telefone.
- Linda, não chore. Isso não é a sua cara. - uma pausa – Está com a sua bolsa aí? Foice e capa? Tem certeza que acha que eu vou enlouquecer? A aliança no meu dedo não me dá certeza disso...
Olhei para minha mão, de repente pesada. Quem era eu afinal para chantageá-lo a loucura, uma vez que fui louca por ele?
- Thomas. Você sabe que esse livro é perigoso. Por que não me devolve e continuamos quietos sobre isso?!
- É, o papo está ótimo Cale, mas eu realmente tenho uma língua dos mortos para decifrar. Liguei só pra perguntar se não tem um dicionário perdido por aí...
- Eu sou o dicionário, Thomas. Quer traduzir, traga o livro para mim.
- Está me dizendo que só posso realizar essas merdas com a sua ajuda?
- Uhum... - por um segundo pensei que ele iria me convencer a traduzir o livro para ele.
- Vou ver o que eu posso fazer... Bem, foi ótimo falar com você Had. Até. Te amo viu...
Acabou. Do nada a voz dele sumiu, substituída por um “pipipi” irritável.
Chega. Que se dane o que ele pensa sobre o livro, ou como ele pensa em realizar esses rituais, ele não vai conseguir nem ler o nome, e enquanto isso, só preciso descobrir onde ele está. Um lugar que tenha cachoeira. Nossa, que grande informação.
- Senhora Cale? - a recepcionista apareceu novamente na porta, a voz mais baixa que um sussurro – Chegou esse pacote para o Senhor Cale. Devo entregar a senhora?
- Ah, claro. - assinei a prancheta que ela me estendeu, e peguei o pacote. Uma caixa enrolada em papel pardo cm o selo nacional, sem remetente. Respirei fundo. Eu torcia para que não fosse um dicionário.
- Agora devo pedir que a senhora deixe o escritório. O senhor Cale odeia quando deixo entrarem, e não sei se ele vai chegar logo. Ele parece ter... Limpado o escritório.
Ela olhou em volta, parecia nervosa, e estendeu a porta, convidando-me a sair. Não me atrevi a sorrir, peguei a bolsa, e coloquei o pacote embaixo do braço. Passei pela porta e ela a trancou atras de mim, depois me seguiu em silêncio até o elevador.
Apertei o botão e segurei o pacote com a outra mão. Não saber o que estava ali me incomodava. E aquela recepcionista atras de mim mais ainda. Virei para olhá-la e me atrevi a sorrir, “hospitalidade...” pensei. Mas quando ela estremeceu e olhou em volta, esfregando o braço pensei que a palavra que melhor se encaixaria seria “hostilidade”.
Tenho que parar de tentar sorrir. Pensei, e entrei no elevador que havia acabado de parar em minha frente.
A recepcionista entrou e a porta fechou. Logo o elevador estava descendo.
- Não vai abrir o pacote? - ela perguntou, totalmente constrangida. Ela estava curiosa? Não. Ela não se meteria assim na vida do chefe.
- Em casa. - eu disse, olhando a porta. Quantos andares tinha isso?

23 de out. de 2010

Fotografias

Ficar sentada, olhando uma foice ou um bilhete escrito a mão com aquelas incríveis letras garrafais não ajudaria em nada. Eu teria que achá-lo. Mas... Se ele já leu o livro, seria impossível matá-lo.
Impossível é ele ler o livro, ri amargamente com a lembrança, aliás isso o tornaria louco, rir o livro sem ser considerado por mim uma pessoa digna.
Olhei novamente o bilhete, e tive que o apertar em meus dedos, tamanha a raiva. Era casada com ele. Tinha aceitado ter uma vida ao lado dele, tinha dito que o amava, aliás, eu o amava. Isso já não era o mesmo que considerar digno? Eu o considerava digno de mim, não consideraria digno de um livro? Não achava que o nosso filho seria digno de guardá-lo, por que o pai não? Mas ele não queria guardar. “Desculpe, é um pouco tarde demais, não acha?” Ele havia escrito. Ele pretendia usá-lo, tornar-se imortal, e sabe-se lá mais o que ele pretendia fazer.
Meu sangue fervia em minhas veias, e eu sabia exatamente por onde começar. Mas tinha medo de persegui-lo. Ele tinha a minha consideração então, o que o impediria de usar o livro?
A raiva tomou conta de mim por uma fração de segundo, mas foi o suficiente para esmagar o bilhete entre meus dedos e soltá-lo no chão. Peguei o telefone e disquei o numero dele novamente.
- Oi, celular do Thomas e, provavelmente eu não posso atender no momento. Deixe seu recado!
- Thomas Cale. Considere-se um homem morto. E se tiver lido o livro, fique sabendo que...
O famoso 'pipipi' tomou conta da linha, indicando uma caixa de mensagens de voz lotada, coloquei o celular no bolso da calça e voltei para o quarto, pegando as chaves do carro.
Não me incomodei de trancar a casa, o único objeto de valor não estava mais lá. E a única coisa que levava comigo além de um cartão de créditos era uma bolsa com a capa e a foice. Eram como objetos inseparáveis em buscas como essa.
Sai da garagem sem muita dificuldade, e em poucos minutos já estava em uma avenida. Tentei me distrair, mas não ousei a ligar o som, mantendo em minha mente apenas o som do carro no asfalto e o baixo som da minha respiração, acompanhando das batidas ritmadas do meu coração.
Em pouco tempo já estava na entrada do prédio do trabalho dele. Parecia meio boba estar parada ali, principalmente agora que sabia que ele não deixaria nenhuma pista para mim, ele sabia que eu não descansaria enquanto não estivesse com o pescoço dele em minhas mãos.
Estacionei. E não tive paciência para pegar um elevador. Sabia que de escada eu demoraria muito mais, mas não estava me importando com tempo, desde que eu não tivesse que ficar parada, esperando. A bolsa estava grudada em meu corpo, e agora podia perceber que fedia a guardado, eu devia ter pegado alguma que tivesse fecho, ou colocado perfume.
Sala 1308. Ele havia pedido para mudar para esse dia para não esquecer o dia em que casamos, eu dizia que era babaquice, nunca fui muito romântica, mas ele era um romântico nato.
Bati três vezes e esperei. Não estava muito afim de ficar esperando mas não queria arrombar a porta, que estava trancada. Uma mulher baixa, morena e meio robusta surgiu no corredor, passos apressados e com um chaveiro. Ela parecia nervosa e evitava me olhar nos olhos. A lembrança me assustou, meus olhos deviam ter saído dos cinzas e ido para os negros, com filetes azulados. Thomas dizia que era a única coisa bela em mim quando ficava estressada, ele dizia que eu ficava assustadora. Tentei transmitir um sorriso para a mulher, tentando tranquilizá-la, mas isso a fez tremer. Droga.
- O senhor Cale ligou, disse que já está vindo e para esperá-lo na sala. - ela parou ao meu lado e abriu a porta, sem dizer nenhuma outra palavra deu as costas e saiu, mais apressada do que quando veio.
A sala estava totalmente escura, e demorei um pouco para achar o interruptor. Acendi a luz e meu sangue ferveu novamente. Estava vazia. Não tinha computador, livros na estante, quadros, nada. Exceto um telefone e uma fotografia em uma armação de vidro. Reconhecia o porta-retratos, ele havia me dado de presente de seis meses de casamento, para pôr em minha mesa no escritório, mas eu me recusei a colocar, dizendo que não demonstrava esse tipo de afeto. Podia ver as marcas na foto da caligrafia perfeita dele, onde havia escrito “13.02.2010 – Hadley Cale, eu te amo.”
Peguei o porta-retratos na mão e tirei a foto, virando-a. Ali estava, escrituras que eu tinha decorado antes de devolver o presente a ele. Agora as palavras soavam tão falsas em meus ouvidos.
O telefone tocou. Cruzei os braços, na esperança que a secretária atenderia. E ela o fez. No segundo toque o telefone parou, então após alguns longos segundos saiu uma voz baixa, meio falhada da caixa de som do telefone.
- Senhora Cale, o senhor Cale quer falar com você, na linha 2. - a voz da mulher sumiu e uma luz acendeu no botão 2, dizendo que a linha estava ocupada. Pude sentir todo o seu corpo congelar, como se necessitasse do sangue dele em minhas mãos para me mover.

9 de out. de 2010

Achados e Perdidos

Não havia um Sol no céu, ou melhor, havia, mas tinha se escondido muito bem, não chovia, mas ventava muito, e não havia pessoas fora de casa numa manhã como essa. É claro que pra mim a manhã estava perfeita.
Olhei a secretária eletrônica mais uma vez, nada. Eu precisava relaxar. Ele havia sumido há dias, e nem uma mensagem. Poderia ter morrido em um acidente de carro, ou fugido com outra. Suspirei, ele sabe que se tentasse qualquer coisa do tipo, seria um homem morto.
Um sorriso negro surgiu em meus lábios, ele sabe que eu seria capaz de matá-lo? Eu seria capaz de matá-lo? A segunda pergunta me fez ficar pensativa. Já havia feito isso antes, inúmeras vezes, eu precisava fazer. Fui criada para não confiar nem me apegar a ninguém, mas falhei completamente quando conheci Thomas Nacotille, após o casamento, Thomas Cale. Evitava tocar nesses assuntos com ele, que sempre fora alguém tão pacífico, não podia nem ver sangue sem vomitar.
Suspirei. Não era possível que não tivesse recebido minhas mensagens. Peguei o telefone e disquei o numero. Chamou uma, duas, três vezes.
- Oi, celular do Thomas e, provavelmente eu não posso atender no momento. Deixe seu recado!
- Amorzinho? É a décima mensagem que deixo. Liguei pro seu trabalho e você ontem saiu duas horas antes do horário normal. Por que não veio pra casa? Estou te esperando...
Coloquei novamente o telefone no guancho e olhei ao redor, estava nervosa. Isso nunca era um bom sinal.
Árvores se agitavam no quintal de casa, e estava me sentindo tentada a abrir a janela e deixar aquele vento impetuoso entrar. Com certeza eu me lembrava da ultima vez que tinha me sentido nervosa desse jeito e não havia sobrevivido ninguém dentro da loja, ainda fico surpresa como nunca descobriram quem foi. Uma morte ou outra, como fazia de costume é fácil deixar passar, mas quarenta pessoas mortas numa mesma loja, que não foi assaltada? Essa história me diverte até hoje, e Thomas sempre dizia que se eu chegasse perto de um acesso daqueles, ele estaria ali para me impedir de qualquer tragédia – bem, ele chama de tragédia, eu chamo de 'descontar sua raiva em inocentes'.
Só sabia de uma coisa capaz de chegar perto de me acalmar, ou como ele também dizia, de concentrar minha raiva só na pessoa culpada.
Subi as escadas. Fazia tempo que eu não fazia isso, sentia até falta de olhá-lo. Entrei no 'quarto de bagunça' segundo Thomas. E abri meu armário. Senti cheiro de mofo e de mais alguma coisa que não reconheci. Havia uma caixa grande, preta, revestida de veludo. Era velha, e a aparência deixava isso bem claro. Só a fechadura aparentava ser nova. Era grande, e o brilho prateado ainda cintilava um pouco, puxei minha corrente do pescoço para ponta dos dedos e abri um mini anjo sem asas, uma chave pequena e reluzente prata brilhou na minha mão sob a pouca iluminação do cômodo, coloquei na fechadura e a girei três vezes, 'tec', e a tampa subiu um pouco.
Levantei a tampa, e posso dizer que senti falta daquele cheiro, guardado, e podre, talvez. Uma capa preta forrava todo o conteúdo da caixa, tirei-a com cuidado, e ali estava, todo o resto. Com cuidado, removi as botas pretas, e coloquei-as no chão, junto com a capa. E então congelei.
Em mais de três mil anos, milhões de pessoas foram mortas. Mas isso nunca aconteceu. Eu mesma, matei centenas de pessoas, e nunca deixei que isso acontecesse. Então, não estava ali. Virei a caixa de cabeça para baixo no chão, meu coração pulsava rápido em meu peito, era impossível que isso tivesse acontecido. Não ele, não o meu Thomas.
Uma foice, com a lâmina fosca de sangue seco fora tudo o que caíra da caixa, junto com uma folha, dobrada ao meio.
“Se achou isto, quer dizer que tem intenção de fazer de mim um homem morto. Desculpe, é um pouco tarde não acha? Thomas.”
Transformei a folha em uma bolinha de papel, podia sentir a raiva sendo bombeada por todo o meu corpo, o desejo de sangue crescendo dentro de mim. “Respire fundo. Você é melhor que isso.” Thomas me diria em uma hora dessas. Mas as palavras de minha mãe não saíam de minha cabeça: “Não confie em ninguém. Não se relacione. Não tenha uma vida.”
Eu havia errado toda a forma de conduzir minha jornada. A única a cometer este erro, a única que depositara toda sua vida em uma pessoa que confiava. Amava. A única que amou, confiou, viveu, e a única que perdeu o livro.