Ficar sentada, olhando uma foice ou um bilhete escrito a mão com aquelas incríveis letras garrafais não ajudaria em nada. Eu teria que achá-lo. Mas... Se ele já leu o livro, seria impossível matá-lo.
Impossível é ele ler o livro, ri amargamente com a lembrança, aliás isso o tornaria louco, rir o livro sem ser considerado por mim uma pessoa digna.
Olhei novamente o bilhete, e tive que o apertar em meus dedos, tamanha a raiva. Era casada com ele. Tinha aceitado ter uma vida ao lado dele, tinha dito que o amava, aliás, eu o amava. Isso já não era o mesmo que considerar digno? Eu o considerava digno de mim, não consideraria digno de um livro? Não achava que o nosso filho seria digno de guardá-lo, por que o pai não? Mas ele não queria guardar. “Desculpe, é um pouco tarde demais, não acha?” Ele havia escrito. Ele pretendia usá-lo, tornar-se imortal, e sabe-se lá mais o que ele pretendia fazer.
Meu sangue fervia em minhas veias, e eu sabia exatamente por onde começar. Mas tinha medo de persegui-lo. Ele tinha a minha consideração então, o que o impediria de usar o livro?
A raiva tomou conta de mim por uma fração de segundo, mas foi o suficiente para esmagar o bilhete entre meus dedos e soltá-lo no chão. Peguei o telefone e disquei o numero dele novamente.
- Oi, celular do Thomas e, provavelmente eu não posso atender no momento. Deixe seu recado!
- Thomas Cale. Considere-se um homem morto. E se tiver lido o livro, fique sabendo que...
O famoso 'pipipi' tomou conta da linha, indicando uma caixa de mensagens de voz lotada, coloquei o celular no bolso da calça e voltei para o quarto, pegando as chaves do carro.
Não me incomodei de trancar a casa, o único objeto de valor não estava mais lá. E a única coisa que levava comigo além de um cartão de créditos era uma bolsa com a capa e a foice. Eram como objetos inseparáveis em buscas como essa.
Sai da garagem sem muita dificuldade, e em poucos minutos já estava em uma avenida. Tentei me distrair, mas não ousei a ligar o som, mantendo em minha mente apenas o som do carro no asfalto e o baixo som da minha respiração, acompanhando das batidas ritmadas do meu coração.
Em pouco tempo já estava na entrada do prédio do trabalho dele. Parecia meio boba estar parada ali, principalmente agora que sabia que ele não deixaria nenhuma pista para mim, ele sabia que eu não descansaria enquanto não estivesse com o pescoço dele em minhas mãos.
Estacionei. E não tive paciência para pegar um elevador. Sabia que de escada eu demoraria muito mais, mas não estava me importando com tempo, desde que eu não tivesse que ficar parada, esperando. A bolsa estava grudada em meu corpo, e agora podia perceber que fedia a guardado, eu devia ter pegado alguma que tivesse fecho, ou colocado perfume.
Sala 1308. Ele havia pedido para mudar para esse dia para não esquecer o dia em que casamos, eu dizia que era babaquice, nunca fui muito romântica, mas ele era um romântico nato.
Bati três vezes e esperei. Não estava muito afim de ficar esperando mas não queria arrombar a porta, que estava trancada. Uma mulher baixa, morena e meio robusta surgiu no corredor, passos apressados e com um chaveiro. Ela parecia nervosa e evitava me olhar nos olhos. A lembrança me assustou, meus olhos deviam ter saído dos cinzas e ido para os negros, com filetes azulados. Thomas dizia que era a única coisa bela em mim quando ficava estressada, ele dizia que eu ficava assustadora. Tentei transmitir um sorriso para a mulher, tentando tranquilizá-la, mas isso a fez tremer. Droga.
- O senhor Cale ligou, disse que já está vindo e para esperá-lo na sala. - ela parou ao meu lado e abriu a porta, sem dizer nenhuma outra palavra deu as costas e saiu, mais apressada do que quando veio.
A sala estava totalmente escura, e demorei um pouco para achar o interruptor. Acendi a luz e meu sangue ferveu novamente. Estava vazia. Não tinha computador, livros na estante, quadros, nada. Exceto um telefone e uma fotografia em uma armação de vidro. Reconhecia o porta-retratos, ele havia me dado de presente de seis meses de casamento, para pôr em minha mesa no escritório, mas eu me recusei a colocar, dizendo que não demonstrava esse tipo de afeto. Podia ver as marcas na foto da caligrafia perfeita dele, onde havia escrito “13.02.2010 – Hadley Cale, eu te amo.”
Peguei o porta-retratos na mão e tirei a foto, virando-a. Ali estava, escrituras que eu tinha decorado antes de devolver o presente a ele. Agora as palavras soavam tão falsas em meus ouvidos.
O telefone tocou. Cruzei os braços, na esperança que a secretária atenderia. E ela o fez. No segundo toque o telefone parou, então após alguns longos segundos saiu uma voz baixa, meio falhada da caixa de som do telefone.
- Senhora Cale, o senhor Cale quer falar com você, na linha 2. - a voz da mulher sumiu e uma luz acendeu no botão 2, dizendo que a linha estava ocupada. Pude sentir todo o seu corpo congelar, como se necessitasse do sangue dele em minhas mãos para me mover.
Nenhum comentário:
Postar um comentário