Apertei o botão aceso, e a linha ficou muda, a não ser o chiado no fundo. Água, não ondas. Cascata. Ele estava perto de uma cachoeira?
- Thomas? - minha voz saiu roca, falha, e me arrependi de ter dito. Insegurança? Desde quando sou insegura? Desde quando minha voz falha? Engoli um bolo de algo irreconhecível na garganta, e tentei ignorar a vista turva de tudo vermelho. É só um instinto psicótico...” Disse para mim mesma enquanto esperava a voz dele me responder.
E eu congelei. Não por que a voz me fez congelar, nada disso. Mas, era o Thomas. O meu Thomas, e ele estava falando comigo. Essas palavras foram dirigidas a mim, e mais ninguém. Como alguém tão doce podia estar armando algo tão perverso?
- Anjo? A minha Cale. Tinha certeza que iria me procurar. - uma risada abafada, meio nervosa, ele estava com medo de mim? - Achou meu bilhete, não foi?
- O que quer com o livro, Thomas? Sabe que se lê-lo vai enlouquecer. Eu não vou pagar um sanatório particular para ladrões. - minha voz estava picotada, e eu tentava convencer a mim mesma que isso era culpa do telefone.
- Linda, não chore. Isso não é a sua cara. - uma pausa – Está com a sua bolsa aí? Foice e capa? Tem certeza que acha que eu vou enlouquecer? A aliança no meu dedo não me dá certeza disso...
Olhei para minha mão, de repente pesada. Quem era eu afinal para chantageá-lo a loucura, uma vez que fui louca por ele?
- Thomas. Você sabe que esse livro é perigoso. Por que não me devolve e continuamos quietos sobre isso?!
- É, o papo está ótimo Cale, mas eu realmente tenho uma língua dos mortos para decifrar. Liguei só pra perguntar se não tem um dicionário perdido por aí...
- Eu sou o dicionário, Thomas. Quer traduzir, traga o livro para mim.
- Está me dizendo que só posso realizar essas merdas com a sua ajuda?
- Uhum... - por um segundo pensei que ele iria me convencer a traduzir o livro para ele.
- Vou ver o que eu posso fazer... Bem, foi ótimo falar com você Had. Até. Te amo viu...
Acabou. Do nada a voz dele sumiu, substituída por um “pipipi” irritável.
Chega. Que se dane o que ele pensa sobre o livro, ou como ele pensa em realizar esses rituais, ele não vai conseguir nem ler o nome, e enquanto isso, só preciso descobrir onde ele está. Um lugar que tenha cachoeira. Nossa, que grande informação.
- Senhora Cale? - a recepcionista apareceu novamente na porta, a voz mais baixa que um sussurro – Chegou esse pacote para o Senhor Cale. Devo entregar a senhora?
- Ah, claro. - assinei a prancheta que ela me estendeu, e peguei o pacote. Uma caixa enrolada em papel pardo cm o selo nacional, sem remetente. Respirei fundo. Eu torcia para que não fosse um dicionário.
- Agora devo pedir que a senhora deixe o escritório. O senhor Cale odeia quando deixo entrarem, e não sei se ele vai chegar logo. Ele parece ter... Limpado o escritório.
Ela olhou em volta, parecia nervosa, e estendeu a porta, convidando-me a sair. Não me atrevi a sorrir, peguei a bolsa, e coloquei o pacote embaixo do braço. Passei pela porta e ela a trancou atras de mim, depois me seguiu em silêncio até o elevador.
Apertei o botão e segurei o pacote com a outra mão. Não saber o que estava ali me incomodava. E aquela recepcionista atras de mim mais ainda. Virei para olhá-la e me atrevi a sorrir, “hospitalidade...” pensei. Mas quando ela estremeceu e olhou em volta, esfregando o braço pensei que a palavra que melhor se encaixaria seria “hostilidade”.
Tenho que parar de tentar sorrir. Pensei, e entrei no elevador que havia acabado de parar em minha frente.
A recepcionista entrou e a porta fechou. Logo o elevador estava descendo.
- Não vai abrir o pacote? - ela perguntou, totalmente constrangida. Ela estava curiosa? Não. Ela não se meteria assim na vida do chefe.
- Em casa. - eu disse, olhando a porta. Quantos andares tinha isso?